As lembranças

Não sou uma pessoa religiosa há muitos, muitos anos, mas tive uma educação católica da qual o Padre Manuel Bastos foi uma parte importante.

Lembro-me de ser criança e de preferir o outro padre que dizia missa lá em Ovar, que era mais jovem e simpático. Lembro-me do respeito, reverência até, com que toda a gente falava com ele desde sempre, de ser um figura de autoridade.

Deixei a Igreja Católica pouco tempo depois de fazer a primeira comunhão e os nossos caminhos nunca mais se cruzariam senão em alguns eventos culturais onde o coro em que eu cantava intervinha.

Sempre nos falamos com cordialidade e à medida que o tempo ia passando também crescia a admiração pela capacidade de um homem que não se impunha propriamente em lado algum, se notar sempre. Era uma figura simpática.

E nunca pensei muito sobre este assunto, mais por sentir algum repúdio pelas instituições católicas do que propriamente por não ser digno de nota.

Há uns anos, a minha prima convidou-me para ser madrinha do filho dela e com diligência tratei de todos os procedimentos necessários, onde se incluia uma declaração da minha paróquia.

Confusa se seria a paróquia da naturalidade ou da residência, procurei online o número de telefone da paróquia vareira para tirar dúvidas. Esperando ser atendida por um/a assistente administrativo/a, liguei – e para minha grande surpresa é o próprio Padre Bastos que atende.

Eu não sou uma pessoa religiosa, como já disse e quando era pequena o Padre Bastos nem sequer era uma figura da minha preferência, mas quando ouvi a sua voz do outro lado confesso que me comovi. Senti-me como se estivesse a falar com um velho familiar de quem já não sabia há muito e apesar de ter “assuntos para tratar”, quis genuiamente saber dele primeiro e conversámos um bom bocado.

Fiquei surpreendida ao perceber que se lembrava de mim, sem precisar de grandes ajudas de memória e esclareceu a minha dúvida, mandando cumprimentos ao seu colega de Cedofeita. Com a simplicidade e afeto de um velho familiar com quem perdemos o contacto, mas cujo laço afetivo ficou supreendentemente preservado.

Era uma daquelas figuras que parecia eterna, um pilar, uma pessoa que sempre me pareceu um ancião e cuja finitude por algum motivo me escapavam.

Acredito que tocou de alguma forma a vida de quase todas as pessoas de Ovar, atravessando gerações e navegando diferentes níveis socio-económicos e culturais como poucos.

Morreu ontem, com COVID19 e é um pedaço da história e da alma vareira que parte com ele.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s