D. Antonieta

Obrigada, Senhora Professora!

Eu tinha cinco anos.

Ainda me lembro como se fosse ontem. O andar de cima da casa-infantário, as escadas depois da porta, o chão carpetado. A porta que dava para a sala de estudo. As mesas baixinhas. as portas da varanda ao comprido da parede, o quadro e depois ela, a minha mestra. Loira, com os seus óculos de armação dourada, toda ela entusiasmo e carinho. 

Eu queria ser sempre a primeira acabar as tarefas para lhe ir mostrar e ficar no colinho a ver se estava tudo certo. Corrigia-me com um grande sorriso e dava-me mais trabalho. 

A nossa dinâmica funcionava tão bem, que à custa dos seus incentivos acabei os livros da pré-primária ainda o ano letivo estava no seu início. A professora tentou-se a dar-me desafios mais difíceis e aproveitando as explicações que eram apresentadas aos amiguinhos que já estavam na primária fui colhendo os ensinamentos como pedras preciosas para lhe mostrar a seguir.

A D. Antonieta era a minha maior adepta, a líder da minha claque. Tudo o que eu fazia merecia elogio, e eu esforçava-me por fazer sempre mais e melhor. 

Disse-me que eu devia começar a ler livros quando já dominava o abecedário e eu tornei-me uma leitora voraz. Dizia-me que eu desenhava bem e eu desenhava em todo o lado. Dava-me contas cada vez mais difíceis e eu suava para as acertar.

No final do primeiro mês da minha primeira classe, enquanto os outros alunos faziam um desenho eu escrevi uma carta à minha professora pedindo encarecidamente para me ensinar alguma coisa de novo que eu já sabia ler e escrever e estava muito aborrecida, que estava a desanimar.

À D. Antonieta, que dirigia a Escola, agradeço o facto de ter pedido todos os favores que pôde para outro colega me aceitar na sua turma da segunda classe nessa mesma semana. Ninguém queria arriscar ser alvo de uma inspeção, mas graças a ela houve um professor que lá me aceitou na turma à experiência.

A D. Antonieta continuou sempre a ser a minha protetora durante a primária, uma espécie de minha mãe da escola.

Olho para trás e vejo que não é possível medir o quanto lhe devo. 

Ensinou-me a ler, a escrever e a contar, fez-me acreditar que eu tinha valor, que fazer perguntas era uma coisa boa e importante. Que era bom aprender. Zelou sempre por mim, certificou-se que eu não desanimava nos momentos difíceis. Ajudou-me a transitar de ano na primária e quando veio o inspetor na quarta classe esteve discretamente presente para eu sentir que estava apoiada também por ela. 

Há pessoas que marcam as nossas vidas de uma maneira tão decisiva, tão grande, tão especial que não há palavras que cheguem para lhes agradecer, mas hoje não quis mesmo deixar de dizer:

– Obrigada, Senhora Professora!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s