[Os dias da quarentena] A subida

Há uns anos atrás, um namorado levou-me a ver um miradouro em Lisboa. Estavamos no sopé da colina e começamos a subir os degraus, o que me parecia uma tarefa impossível. “Acho que não consigo, vamos voltar para trás”, reclamei. Mas ele disse-me que eu estava a fazer mal os degraus: “faz de conta que esta escada nunca mais termina e sobe a esse ritmo”.

Para minha enorme surpresa a técnica resultou e após algum tempo quase sem contar a subida terminou, com uma vista magnífica sobre a cidade e um beijo de recompensa.

Hoje esta frase soa-me internamente como uma sirene.

Tenho vivido as duas últimas semanas com o coração nas mãos, acelerado, como se estivesse a fazer um sprint – “mais quinze dias e estou com os meus pais”, “mais quinze dias e abraço a minha irmã”, “mais quinze dias e o João brinca com os avós”. Tenho vivido surda aos avisos de que esta situação se deve manter por mais uns tempos e “por mais uns tempos” é mais uns meses, não uns dias.

Custa-me concentrar para o trabalho imenso que tenho em mãos, porque estava a viver num horizonte de 15 dias para a normalidade e afinal a normalidade não veio. 

Às vezes fico perdida. Não sei como me posso organizar. Passou o pânico de não haver comida e bens essenciais. Não passou o medo da crise que aí vem.

Hoje caiu-me a ficha de que esta realidade é o nosso novo normal nos próximos tempos. Não sei o que isso significa, mas sei que vou ter de encarar cada dia como um degrau na escada para o miradouro da Graça e tentar fazer o melhor. Parar para descansar de vez em quando, apreciar a vista e um dia, quando menos esperar, chegamos ao topo, com a melhor vista da cidade e um beijo.

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