Bem vinda ao clube!

As amizades não se explicam, sentem-se. Tenho uma mão cheia de amigas com quem tenho uma cumplicidade excecional e inabalável que não requer convívio diário. Somos um grupo de mulheres (só mulheres nesse grupo) onde a solidariedade e a irmandade nos é tão natural como respirar. Ontem soube que uma dessas amigas está grávida. Fiquei tão feliz que ainda me comovo quando penso nisso. Estas são as primeiras palavras escritas que lhe quero deixar sobre ser mãe.

Como sabes, não sou uma pessoa “dos bebés”, prefiro quando já falam e andam, e então com as crianças perco-me em brincadeiras e o tempo passa sempre rápido. Quando estive grávida, disse muitas vezes que se o bebé pudesse vir já com 3 anos seria ótimo, porque os bebés são uma secaaaaaaaaa.

Fast forward 9 meses+10 meses, e eis o que te posso dizer: sou uma tola. Com o recém nascido reaprendi a ser. Só a ser e estar. O RN não interage muito (da maneira que estamos habituados a interagir com outras pessoas, isto é), mas precisa constantemente de ti: tu és a sua casa e é contigo que ele está em paz e que ele está feliz. Por muito que outras pessoas possam ser meigas e competentes a cuidar dele, tu és o mundo que ele conheceu ao longo de 9 meses, foi a tua voz que ele ouviu desde sempre, o teu cheiro está-lhe entranhado na pele e na memória… O bebé não é “teu”, o bebé és “tu”, já que não há propriamente uma linha que vos separa: apesar de parecerem ser duas entidades distintas não é bem verdade que o sejam porque vocês são uma simbiose física (se ele chora tu lactas, por exemplo) e psicológica (se tu não estiveres bem ele não vais estar bem, se ele estiver bem, tu até respiras melhor). Isto significa que muito do tempo com o RN não é passado a fazer nada de especial (não faz “cucu”, não se ri deliberadamente, nem sequer vê bem…), é passado só a ser e estar com ele, a deixar o tempo passar para ele crescer e a fazer com que esse tempo seja de segurança e de amor. Estar grávida é estar de “esperanças”, ou seja, à espera, mas os primeiros meses são uma continuação deste processo só que com o bebé cá fora. É como se fosse uma forma de meditação: o teu mundo abranda e tu abrandas com ele.

Ainda bem, estás a fazer a coisa mais importante do mundo ao ser e estar com ele, não é preciso mais do que isso.

No entanto, também é bom que se diga que a maternidade não é só borboletas e passarinhos zen, e haverá momentos em que te perguntarás se não teria sido melhor arranjares um “bebé de quatro patas”. É normal. A investigação indica que uma parte significativa dos pais e mães já fantasiaram atirar com os bebés e alguns chegaram a temer fazê-lo. A malta do SNS 24 tem indicação de perguntar aos pais de bebés se por acaso não os abanaram com força quando ligam porque o puto não reage ou quando não pára de chorar – até há um nome para isto “shaken baby syndrome”. Não significa que sejamos uma nação de infanticidas, apenas que os nossos limites são testados (a privação de sono é uma forma de tortura afinal de contas…). Ter a noção disto e de que se o bebé está seguro podemos deixá-lo estar um bocadinho a chorar para nos acalmarmos antes de lhe pegar é importante e pode não só evitar que nos “passemos” como o facto de estarmos calmos quando se pega no bebé ajuda a que o RN se acalme também.

Aquela coisa que eu dizia antes relativamente ao ser e ao estar com o bebé é verdade: ele não vê bem nos primeiros tempos, é tudo um nevoeiro, por isso os seus sentidos mais relevantes são o tacto e o cheiro, o que significa que capta as tuas reações corporais (emocionais!) antes de tudo. Cuida de ti e estarás a cuidar do bebé. Pede ajuda quando precisares, não tens de ser a super mulher (e de qualquer forma não temos notícias que a supermulher tenha parido :))

C., o bebé vai mudar a tua vida (já mudou e ainda vai mudar mais!), mas vai fazê-lo para tão melhor, sabes? – “com os bebés os dias são longos e os anos são rápidos”, diz-me sempre a minha cunhada, e é verdade.

Mesmo sem os truques todos para te derreter o coração que o teu bebé vai aprender (e vai saber TÃO bem!), prepara-te para amar de uma forma nova e avassaladora e para viveres a maior aventura da tua vida.

Bem vinda ao clube!

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