[Mãe!] Tudo o que sempre quis saber sobre a produção de leite materno e nunca teve coragem de perguntar

É um tema praticamente tabu, mas incrivelmente central na vida que quem escolheu e pode amamentar um bebé: como garantir que se está a produzir uma quantidade de leite suficiente para alimentar a cria?

A OMS recomenda que sempre que possível se faça a amamentação com leite materno em exclusivo até aos 6 meses e só depois se passe para alimentação complementar / diversificação alimentar.

A investigação indica que além de a criança ficar mais protegida de doenças e vírus, tem menor probabilidade de ser obesa na adolescência e idade adulta, de ter melhores resultados nos testes de QI, etc.

Isto, que é uma ideia linda e validada por muitos estudos científicos, pode significar que uma mulher pode ter de produzir quantidades na ordem do litro de leite e mais por dia, o que além de causar algumas preocupações, dá uma fome do caraças e é bastante cansativo. Não é fácil.

De acordo com Kent (2012) a principal razão para as mulheres deixarem de amamentar é o facto de temerem não estar a produzir leite suficiente para alimentar o bebé. Este receio normalmente é infundado porque não existe nenhuma forma de saber isto a não ser pelo ganho ou não de peso do bebé: o quanto se bombeia, o quanto sai quando se espreme um mamilo, o tempo que o bebé está à mama não são bons indicadores da quantidade e qualidade do leite produzido…

O que podemos fazer para assegurar uma boa produção de leite?

Sabemos que o stress pode dar cabo da produção de leite – mas o que sabemos sobre aumentar ou manter a mesma?

  • Na fase do parto os profissionais de saúde fartam-se de falar da importância da oxitocina para a criança nascer e o parto correr bem. Na fase da amamentação é igual!
    • “The release of oxytocin stimulates milk ejection needed for effective breast milk expression orbreastfeeding.” (Kent, 2012)
    • A oxitocina secretada pela glândula pituitária da mãe em resposta ao chupar do mamilo por parte do bebé estimula a contração das células mioepiteliais, que leva à ejeção do leite. Este reflexo de ejeção de leite, ou “descida do leite” transfere o leite dos alvéolos onde está armazenado para as lacteal sinus, permitindo que o leite possa ser facilmente extraído pelo bebé (Woolridge e Baum, 1988).

Assim, o auto-cuidado que é tão difícil nesta fase é também fundamental. Tirar um pouco de tempo para relaxar, tomar um banho de imersão, ler um livro, pedir uma massagem ao companheiro ou companheira… etc. pode ser fundamental para manter os níveis de oxitocina que facilitam a produção do leite. Também por isto, as mães precisam de ser mimadas!

  • Para aumentar a ejeção de leite, podem usar-se técnicas de relaxamento (Feher et al., 1989), bem como ter o bebé por perto quando se fazem sessões de extração do leite (há quem diga ordenha, há quem diga expressão do leite… bom, percebem a ideia…) ou até, ter o bebé a mamar de um lado enquanto se coloca a bomba do leite do outro. Se a mãe não está perto do bebé, o uso de uma fotografia do bebé, por exemplo, pode ajudar a despoletar os mecanismos que levam à produção de leite.
  • Algumas mães reportam que tomar um banho de água quente ou aplicar compressas aquecidas na mama antes de bombear o leite ajuda.
  • Kent e colegas (2003) referem ainda que em 90% das mães, as bombas que alternam a intensidade do vácuo, imitando a forma como os bebés chupam o leite tendem a ser mais eficazes.
  • A produção de leite está baseada numa lógica de oferta e demanda: quanto mais se der de mamar/bombear leite maior é a probabilidade de se produzir mais leite
    • A regularidade da retirada de leite é mais importante que a quantidade de tempo de cada sessão: um peito esvaziado sinaliza ao corpo que pode produzir mais leite.
    • O site da Medela sugere que devemos certificar-nos que estamos a dar de mamar ou bombear leite pelo menos 8 vezes ao dia.
    • Bombear as duas mamas ao mesmo tempo pode não só reduzir o tempo que se leva no processo, mas tende a aumentar a quantidade de leite produzido em cerca de 20% (Jones et al., 2001;Prime, Garbin, Hartmann, & Kent, 2010).
    • Uma alternativa pode ser também bombear leite após dar de mamar, o que tende a produzir menos quantidade para armazenar no congelador, mas aumenta a produção no todo.

  • Como bombear:
    • Idealmente usar uma bomba que altere a força com que faz o vácuo para simular o padrão com que o bebé retira o leite da mama.
    • O vácuo deve ser ajustado para o máximo possível, observando sempre que a mãe esteja confortável com a força que a bomba faz (Kent et al.,2008).
    • Uma massagem ao peito em combinação com o bombear de leite pode aumentar a quantidade de leite que é retirado    (Jones, Dimmock, & Spencer, 2001; Morton et al., 2009) e pode ajudar com nódulos/gânglios mamários inflamados que por vezes surgem.
    • Adicionalmente, aquecer as mamas durante o bombeamento tem surgido na investigação como benéfico para a eficiência do leite retirado e para o conforto materno (Kent, Geddes, Hepworth, & Hartmann, in press).
    • Bombear as duas mamas ao mesmo tempo pode não só reduzir o tempo que se leva no processo, mas tende a aumentar a quantidade de leite produzido e consequente melhor esvaziamento do peito (Jones et al., 2001;Prime, Garbin, Hartmann, & Kent, 2010), mas também é mais eficiente e resulta na retirada de leite com mais elevado conteúdo de gordura.
    • Depois de voltar ao trabalho muitas mulheres têm dificuldade em arranjar tempo para bombear leite, mas neste contexto a frequência das sessões parece ser mais importante que a duração das mesmas. Algumas pessoas desistem de bombear numa determinada altura porque não vão ter a meia hora que acham que precisam para poderem esvaziar o peito por completo, mas na realidade mesmo que seja uma sessão de 10 minutos já não é mau, porque quando o peito fica cheio e permanece assim, as células começam a “desligar” a produção de leite.
    • “Power pumping” – algumas mulheres, não conseguindo manter um bom ritmo de bombeamento de leite durante a semana de trabalho, compensam durante o fim de semana com uma técnica que estimula a produção de leite. A ideia é retirar leite de forma repetida durante um tempo predeterminado (tipicamente 10 minutos de hora a hora). Ao esvaziar o peito repetidamente sinaliza-se ao corpo a necessidade de fazer mais leite e mais depressa. Uma boa altura para fazer isto é quando o bebé está a dormir ou aos cuidados de outrem (o pai, avós… etc.)

  • Há algumas ervas e suplementos dietéticos que estão recomendados, embora a evidência sobre o seu funcionamento não seja conclusiva:
    • Feno Grego
      • Fenu-greek has been shown to be effective within 7 days (Gabay, 2002) with the effect lasting for 6 weeks (Damanik, Wahlqvist, & Wattanapenpai-boon, 2006).
      • Outras ervas tradicionalmente usadas mas que não têm estudos científicos rigorosos feitos acerca da sua eficácia são: anis, manjericão, cardo mariano, algodão, alcaravia, agno-casto (vitex agnus-castus), funcho, verbena, goat’s rue (Galega officinalis), luffa e squawvine (Academy of Breastfeed-ing Medicine Protocol Committee, 2011; Gabay,2002)
    • Aveia – há até receitas online para “lactation cookies”, bolachas formuladas com ingredientes especialmente incluídos pelas suas propriedades de apoio à produção de leite
    • Linhaça (moída em casa ou comprada assim diretamente)
    • Promill – são uns comprimidos que também prometem aumentar a produção de leite

Reflexões finais

Isto da maternidade é tramado: somos sempre responsáveis por alguma coisa, todas as nossas decisões impactam o bebé e quando não está ao nosso alcance decidir sentimo-nos mal porque não conseguimos fisicamente fazer a, b, c, d…

A coisa que mais me impressionou nesta pequena investigação que fiz foi: a maior parte das mulheres deixa de dar de mamar porque acredita que deixou de produzir leite em quantidade/qualidade suficiente (o que é praticamente impossível saber com certeza…)

Para as mães que podem e querem amamentar, isto apesar de ser uma coisa muito natural e orgânica, e parecer aquilo que os anglosaxónicos chamam de “effortless”, está longe de ser fácil.

No princípio é preciso ensinar o bebé a pegar corretamente no peito, nós precisamos de aprender como é que o nosso corpo está a funcionar e depois destas aprendizagens estarem feitas (melhor ou pior) vem meio ano em que somos quem produz toda a comida que um bebé come mais ou menos entre 8 a 12 vezes. É um trabalho sem descanso, sem pausa e em contínuo. Depois vêm as dúvidas se o leite é bom e em quantidade, se estamos a comer o suficiente para dar todos os nutrientes ao bebé… etc. Por outro lado, a mama tem propriedades que vão muito além do nutritivo: acalma, conforta, embala, protege de doenças, infeções e alergias. A mama é conveniente porque está sempre pronta, disponível e à temperatura certa. Last, but not least, o momento da amamentação é mágico, íntimo e cheio de amor – é uma experiência incrível. Por todas estas razões, é um esforço que vale muito a pena.

Mas francamente, se uma mãe não quiser amamentar, também não faz sentido ficar a recriminar-se. Antes de biberão do que dar mama e ficar-se super infeliz e/ou com dores e a ressentir-se com a criança: que raio de bonding é que isso cria?

Às mães cujo corpo não quer fabricar leite em quantidade ou qualidade suficiente para alimentar só com isso as suas crias – há tantas outras coisas importantes que podemos fazer para promover a sua saúde, que não será por estarem a ser alimentados com leite materno e/ou leite adaptado que vão ser menos felizes na sua vida.

A sociedade – e as famílias, amigos, conhecidos… etc. – são frequentemente muito duros connosco. Tentam impingir-nos as suas expectativas, padrões e opiniões, que mesmo que muito bem intencionados, nem sempre são realistas ou exequíveis para uma pessoa em particular: nem tudo o que resulta com umas pessoas, resulta com as outras!

Vamos fazer um pacto e será o nosso segredinho: dizemos amen com o que nos estiverem a chatear, para não termos de debater coisas que são nossas e são íntimas e fazemos o que pudermos sem nos culparmos demasiado. Reparem: há 50 anos atrás a comunidade médica achava que o leite adaptado é que era bom, o leite materno era “uma porcaria” e houve uma geração inteira que se criou assim, certo?

O mais importante é o amor e esse não depende de oxitocina ou feno grego para se produzir, sai com cada inspiração-expiração e só aumenta ao longo da vida (com pequenas pausas para fúrias justificadas na infância e adolescência), por isso vamos ser mais meiguinhas para nós mesmas e reconhecer que estamos a dar o nosso melhor – e quem dá o que tem, a mais não é obrigado!

Referências

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