Um ano artístico [junho/julho]

Disse-lhe muito preocupada que já não me sabia divertir e que achava que talvez estivesse aí o problema, que o meu desafio era voltar a perceber como é que isso se faz. Ela respondeu-me que havia desafios mais difíceis.

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Comprei muitos lápis e pus os cadernos a jeito. Reorganizei a casa que é uma coisa que sempre me ajudou em momentos de reorganização mental. Mantive a carga de trabalho reduzida e tentei não abusar, nem com a promessa de ficar com tudo concluído e ter tempo só para mim.

A minha enxaqueca ensinou-me a não ter pena destas concessões. “Não ficas a trabalhar mais meia hora para acabar isso”, diz-me com um tom metálico e fino que sinto no meu lobo temporal como uma agulhazinha que promete tornar-se maior.

– “Amanhã quando acordares terminas” – reforça autoritária

“Mas era só meia hora e ficava feito… Amanhã se calhar não consigo…” – balbucio em vão; a dor agrava e se não lhe faço a vontade às vezes castiga-me um dia inteiro, dois, três, sem tolerar luz, sem suportar ruídos e muito obviamente sem conseguir trabalhar.

No princípio, esta tirana deixava-me triste porque gosta de se meter não só no meu trabalho mas também na minha vida social; hoje compreendo que não adianta lutar contra ela, ela vai sempre ganhar. Eu posso ganhar também se lhe fizer a vontade.

Todo o mês de junho e princípio do mês de julho foi um repetir da viagem de ida volta da minha cabeça contra a parede na busca do meu lado artístico. Está a demorar a recuperar o fôlego!

Então, fui viajar com a minha irmã. Sair de onde estava por uns dias, ver gente diferente, em lugares diferentes com problemas e sonhos que nem sempre são diferentes.

Há quem diga que não podemos ver a floresta toda se estivermos lá metidos dentro. Este verão saí da minha floresta e percebi um par de coisas importantes, mas sobretudo isto: um ano artístico é um ano em que eu estou feliz, o que talvez não seja bem verdade de há uns tempos para cá, apesar de aparentemente ter tudo para isso. Portanto, no resto de 2017 vou procurar tomar decisões com base na questão “isto faz-te feliz?”, “vai ser divertido?”, “vais gostar de fazer isto?”. Quando a resposta for não, vou ver se consigo mesmo não fazer essa coisa.

E vamos ver que tal resulta esta abordagem.

 

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